Escala 5×2 e jornada de 40 horas semanais podem acelerar a automação das empresas do varejo

A automação do varejo pode ganhar velocidade diante da escassez de mão de obra, segundo Luis Fernando Laurenti, diretor comercial da Laurenti Elgin. A fabricante afirma que a procura por caixas de autoatendimento cresceu e prevê que o ritmo se mantenha.

O debate ocorre após a aprovação, pelo Senado, de uma Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que prevê a mudança da escala 6×1 para 5×2 e a redução da jornada semanal de 44 para 40 horas, sem corte salarial. Especialistas ouvidos na reportagem relacionam a mudança ao aumento dos custos de pessoal e à maior acessibilidade da tecnologia.

Com sede em Diadema, no Estado de São Paulo, a Laurenti Elgin foi comprada por outra empresa brasileira, a Elgin, e, segundo reportagem publicada em 19 de outubro de 2026, ampliou sua estrutura para atender à demanda. O setor também inclui redes como Hirota e representantes da Associação Paulista de Supermercados (Apas).

automação do varejo

Os efeitos da automação dividem opiniões: a Apas apontou um déficit de 35 mil postos de trabalho em supermercados paulistas, enquanto o economista José Pastore avaliou que algumas empresas podem repassar custos aos preços. A reportagem aborda ainda os limites da tecnologia e os desafios de adaptação em diferentes segmentos do varejo.

Escassez de mão de obra impulsiona a produção de self-checkouts

A Laurenti Elgin, fabricante de equipamentos de automação para supermercados, atacados e atacarejos, detém 85% do mercado, segundo o diretor comercial Luis Fernando Laurenti. A produção mensal de caixas de autoatendimento chegou a 1,6 mil unidades, ante cerca de 800 no ano anterior.

Com 3 mil pedidos em carteira, o prazo de entrega passou de 30 dias para dois meses. Laurenti atribui o aumento da procura à dificuldade de contratação no varejo e afirma que a automação já avançava antes da mudança nas regras de jornada.

A indústria transferiu suas operações para uma fábrica de 8 mil metros quadrados, depois de ocupar uma área de 2 mil metros quadrados. A unidade tem 260 funcionários, dos quais 89 foram contratados em 2026.

Na avaliação de Laurenti, a busca por equipamentos deve continuar acelerada com a alteração da escala e da jornada. Eduardo Terra, cofundador do Instituto Retail Think Tank (IRTT), também associa a tendência à combinação entre tecnologia mais acessível e aumento do custo do trabalho.

Economia estimada com a automação dos caixas

Os cálculos apresentados por Laurenti comparam quatro caixas tradicionais a quatro self-checkouts alugados. Considerando salários e encargos, cada funcionário custa R$ 4 mil por mês, e a operação dos quatro caixas convencionais exige dois turnos, totalizando R$ 32 mil mensais.

Na configuração automatizada, um fiscal atende quatro equipamentos em dois turnos, com custo de mão de obra de R$ 8 mil por mês. A locação dos quatro self-checkouts acrescenta R$ 3,4 mil à conta, pois cada unidade custa R$ 850 mensais.

Somados o fiscal e o aluguel dos equipamentos, o gasto mensal fica em R$ 11,4 mil. Segundo o cálculo do executivo, isso representa uma redução de 64,3%, ou R$ 20,6 mil, em relação à despesa com os caixas tradicionais.



Para quem compra os equipamentos, o preço informado é de R$ 20 mil por unidade. No exemplo de quatro caixas, Laurenti estima que o investimento seria recuperado em quatro meses por meio da economia com funcionários; a reportagem observa que ainda não há dados comparativos sobre a compensação dos custos trabalhistas após a mudança das regras.

Supermercados divergem sobre o impacto da tecnologia no emprego

A rede Hirota, com 220 lojas, sendo 20 supermercados, emprega 2,3 mil pessoas e registra déficit de funcionários de 12%, segundo o diretor Hélio Freddy. A empresa já utiliza caixas de autoatendimento, mas não ampliou a compra por causa da escala de trabalho.

Freddy afirma que a tecnologia ajuda, mas não resolve sozinha a falta de pessoal. A rede pretende manter o quadro de funcionários, reorganizar horários e considera a possibilidade de encerrar mais cedo o funcionamento aos domingos.

O executivo também avalia o uso de robôs em tarefas mais pesadas, como o abastecimento das lojas. Já Erlon Ortega, presidente da Associação Paulista de Supermercados (Apas), diz que a tecnologia tende a mudar a posição dos trabalhadores, sem eliminar necessariamente a necessidade de contratação.

Ortega cita o autoatendimento de frios como exemplo: ainda é necessário um funcionário para fatiar e embalar os produtos. Para ele, ferramentas de coleta de dados e inteligência artificial podem elevar a produtividade, mas reduzem pouco a demanda por mão de obra; sua proposta é regulamentar o trabalho por hora com direitos previstos na Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), como complemento de escala. A Apas calcula que as novas regras podem elevar entre 15% e 20% a folha de pagamento dos supermercados.

Custos trabalhistas, repasse de preços e desafios dos shoppings

José Pastore, presidente do Conselho de Emprego e Relações do Trabalho da Fecomércio-SP, pondera que a automação não é uma opção viável para todas as varejistas. A possibilidade depende do segmento e de investimentos em equipamentos, sujeitos às condições de juros, que a reportagem descreve como elevados.

Para Pastore, algumas empresas podem considerar mais barato repassar o aumento dos custos trabalhistas aos preços do que investir em tecnologia. Lyana Bittencourt, CEO do Grupo Bittencourt, avalia que a automação passou a ser uma necessidade para buscar eficiência, mas ressalva que negócios dependentes de atendimento presencial não eliminam a necessidade de equipes.

Bittencourt aponta maior aplicação de recursos automatizados em supermercados, no segmento alimentar e no setor de moda, incluindo totens de atendimento. Ainda assim, os resultados variam conforme a atividade, e a tecnologia pode não reduzir o número de trabalhadores em operações que exigem pessoas no local.

Nos shopping centers, Francisco Ritondaro, diretor da Gouvea Malls, identifica a abertura aos domingos como um desafio, já que os horários das lojas são definidos por contratos. Ele estima que lojas pequenas, com dois ou três funcionários, podem ter aumento de 25% nos custos ao adaptar escalas; para o consultor, a resposta envolve negociar com a administração do shopping e reorganizar os horários, enquanto lojas de alimentação podem automatizar parte das atividades e lojas âncoras ajustar suas equipes.



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